segunda-feira, 27 de julho de 2009

As Cores do Silêncio

Mais que ausência de palavras, supressão de ruídos ou alheamento dos sons do mundo, a série As Cores do Silêncio representam-no como aquela condição íntima para a escuta. Aqui visão, tato, paladar, olfato e audição silenciam, o ser humano como um todo se deixa arrebatar, esquecer e se tornar parte. Paulatinamente serão acrescentadas novas cores a série inicial, bem como complementadas as já publicadas.

Silêncio Azul

Ergueu-se na imensidão feito um pássaro recém-saído do ninho. Não sentia em seu peito a novidade, mas uma viva sensação de retorno, como se aquele céu já fizesse parte de suas memórias mais antigas. O vento o empurrava para cima, era um cavaleiro a galopar em sua montaria alada. Ícaro não falhou em sua tentativa de ser um deus. Voar é ser infinito.

Silêncio Verde

Até onde seu ser podia se estender, folhas unidas faziam da copa das árvores um tapete de incalculáveis tons de verde. Amarelos e rosas intrometidos eram incapazes de estender seus domínios além de pontos isolados ou pequenas moitas, resignados ao papel de simples enfeites. O canto dos pássaros emergia em ruído múltiplo de seres, somados, porém únicos, uma orquestra de instrumentos diversos e harmônicos. Sua melodia era a própria voz da natureza.

Silêncio Verde Esmeralda

Deitado sobre uma cama de ondas, adormecia embalado pelo movimento do barco. O anzol teimava em não obter sucesso. Entre incontáveis cardumes de peixes, não havia um que desse atenção a sua emboscada. Na expectativa de sua presa, era ele mesmo prisioneiro do mar em sua cela flutuante. E poderia pedir ao céus a pena perpétua.

Silêncio Amarelo

O frio não diminui sob o Sol, ineficaz para conter aquela gélida manhã. Contudo, sua presença aquecia a alma. O Sol não lhe trazia calor, dava-lhe um espetáculo, um prenúncio da Primavera que logo se estabeleceria em lugar do Inverno, e isso era-lhe suficiente naquele momento em que a matéria humana parecia também congelar-se no gelo das nevascas. Na escuridão basta-lhe o brilho.

Silêncio Laranja

O dia se despedia, mas não sem estender no horizonte o testamento de sua presença. Como um exército em fuga a lançar no campo de batalha um mar de despojos embebidos em sangue, o Sol buscava refugio em outras terras deixando atrás de si um rico tesouro abandonado de nuvens douradas.

Silêncio Vermelho

O ferro da lâmina fazia se sentir no sangue em sua boca. Ele, guerreiro antes invencível, era agora presa da dor. Jamais poderia supor uma morte diante de um inimigo tão sem valor, mas seus braços já haviam perdido o vigor e a destreza da juventude. Um adversário fácil, agora seu algoz. Sonhara com um sepultamento de herói, contudo já não espera nada. Seu corpo deixa-se tombar para trás em uma última retirada. Os olhos fixos do agressor não exigem novo golpe. Está o equilíbrio da vida nele para sempre abalado, seu templo de deuses e superstições são ruínas prontas a desabar.

Silêncio Rosa

Seus lábios se tocavam com a pressa de quem estava há muito faminto. Estavam sozinhos, não havia ninguém para incomodá-lo, ninguém para interromper ou interferir na busca de um pelo outro. Contudo, a ânsia não exigia agora outra contemplação que a própria realização do desejo. E esse exigia-se imediato.

Silêncio Negro

Um luto terrível tomou posse de seus ossos. Era o fim da espera, o fim da esperança, era a evidência do que tanto havia negado a aceitar nas palavras dos amigos que lhe apontavam a busca como mal fadada. O conhecimento da verdade roubou-lhe a crença num mundo já não mais existente, estava diante de um desenlace sem volta, a certeza da morte.

Silêncio Cinza

Nuvens cobriam com uma densa mortalha aquele dia macabro. Iria se repetir novamente a enchente da qual havia mal acabado de recompor-se. Um tipo de resignação fazia sentir até mesmo nos pássaros em sua busca por abrigo frente ao vento cada vez mais forte. Ainda guardava a esperança de chuva mudar de direção, de um sopro divino levá-la a terras secas e áridas, e afastá-la das terras onde sua presença havia se tornado um castigo, um dilúvio a matar no ventre o esforço de edificar. Contudo, o movimento da natureza mais uma vez anunciava a catástrofe. Não havia nele mais o desejo da fuga, a angústia de ser também vítima da tempestade, mas começa a despertar-lhe a necessidade de ser batizado uma vez mais naquelas águas para ser então lavado de uma vez por todas de sua crença no futuro.

4 comentários:

Joao Paulo (JPZB, John, Paul, JP, Ze', Joao) disse...

Ola' Rodrigo! Fantastica essa sua nova faceta, alem de engenheiro do reino, poeta do reino! Pimenta-do-reino!... (apenas um joguinho... rs). Aguardo o livro ser publicado. Sei que erros de digitacao ocorrem e voce talvez nao teve tempo de rever, mas se ainda tiver tempo, gostaria de sugerir algumas correcoes antes da publicacao impressa:
"a serie As Cores"; "paulatinamente"; e' emburrar de proposito ou "empurrar?"; "roubou-lhe"; "estava diante de"; "da qual havia mal acabo" acho que ficou esquisito; "sopro" divino; "sua presenca"; "despertar-lhe". Se vc perceber, esta' na sequencia do texto. Nao sei se vc pode editar online ou ja' o fez. A intencao e' apenas construtiva. A proposito, uma pergunta: porque a inspiracao nas cores do arco-iris? rs. Abracos e sucesso no seu livro, Joao Paulo

Blog Clarice Lispector disse...

Olá! Seu texto foi publicado no Blog Clarice Lispector.

http://claricelispector.blogspot.com/2009/07/homenagem-clarice-lispector.html

http://claricelispector.blogspot.com

Obrigado pela liberação!

Rodrigo Rosa disse...

Obrigado João Paulo. Não tive tempo de revisar o texto antes de enviar. Os erros já foram corrigidos.

Liliana Jasmim Gonçalves disse...

Vim aqui parar pelo poema no blogue Clarice Lispector.

E, aqui encontrei poemas com a mesma qualidade.

Achei muito interessante estas cores do silêncio;
se fôssemos a cor do silêncio, qual seríamos?

;)