sábado, 28 de novembro de 2009

Lançamento da antologia do II Prêmio Literário Canon de Poesia 2009



sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Um dia a frente

Acordo calado em desacordo com a cama.
Cobertores demais. Lençóis perfumados.
Arrisco-me a tirar sem pressa meu pijama.
É preciso tempo para saber-me acordado.

Um dia a frente, todo dia, todo um dia.
Faço minha previsão do tempo, chove.
Na geladeira, um queijo em finas fatias.
Pó, água quente, café, copo, um gole.

Ligo a TV. O mundo acontece, morre.
Desejo o novo carro novo do comercial.
Cerveja, futebol, gols, um tênis corre.
Fico sério agora. Notícias no jornal.

Arrumo o cabelo. Escovo os dentes.
Revejo as olheiras de sono, rugas.
O tempo pesa anos de repente.
Esqueço. Vou viver outras lutas.

A chave. O cel. As contas. A carteira.
Absoluta atenção, lembro o indispensável.
Abro o portão. Viro rápido a direita.
Sei o caminho. Sigo. Estou no horário.

Um dia a frente, todo dia, todo um dia.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O homem está nu

Um grito de escândalo rompe a praça.

O homem está nu.

Mocinhas delicadas tapem os olhos,
guardem-se de ver um corpo humano.
Mães afastem seus filhos do perigo, 
protejam sua infância de uma blasfêmia.

O homem está nu.

Cubramo-no de miséria, de sujeira,
de egoísmo, de descaso, de doenças,
humilhemos seu orgulho de ser gente.

O homem está nu.

Vistamo-no com roupas bem passadas,
com ódios, com ganância, com mentiras,
ensinemos a rotina de nossos hábitos.
Que ele saiba tomar café e coca-cola.

O homem está nu.

Coloquemo-no na escola, no curral, 
seja uma ovelha entre tantas outras.
Aprenda que no mundo há mestres,
doutores, professores, e alunos,
e a matéria reprova e aprova em testes.

O homem está nu.

Façamos dele um médico, um engenheiro,
um dentista. Aprenda um trabalho qualquer
com que possa ganhar seu próprio pão
sendo um burocrata deprimido.

O homem está nu.

Ensinemo-lhe a poupar para se endividar,
a consumir coisas fúteis, a ver televisão,
a acreditar em jornais e revistas semanais,
a medir seu grau de informação longe das ruas.

O homem está nu.

Depositemos nele nossa vergonha descarada,
matemos essa natureza rebelde!
Roubemos seus ideais, suas crenças, 
sua juventude nobre e sonhadora.

O homem está nu.

Demo-lhe uma casa para se abrigar de homens,
que como ele ousaram um dia ser nus.
No calor doméstico envelheça calado,
tenha mulher, filhos e um cachorro vila-lata.

O homem está nu.

Esqueça a energia de estar vivo, 
de sentir o vento, de tomar chuva.
Que os cobertores o façam duvidar do frio,
da noite, dos perigos de ser.

O homem está nu. Quem não está?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Obra humana

Deve haver um sentido para existência,
afinal tudo parece tão certo. Arrumado.
Nada discorda de si, tudo é coerência,
unidade feliz de um êxito bem ensaiado.

O mundo não duvida que está aí e pronto,
acontece como quem sabe da resposta.
Mesmo um grãozinho reina no seu ponto,
lei, ordem, segurança. E ninguém nota.

É como se não existisse grão de areia,
e o mar não recuasse ao bater na praia.
Alheios às verdades que a vida semeia,
tudo nos é recurso. Pobre samambaia.

Construindo, lançamos cidades ditas grandes,
enchemo-las de gente, de torres em seus picos.
Mas quem seria capaz de erguer novos Andes?
De empreender uma obra como Machu-Picchu?

Nosso esforço não chega a nos fazer humanos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Conchas

Procuro amigos como quem cata conchas,
entre praias, areias e pedras escorregadias.
Não tenho pressa. Escolho. Pulo as ondas.
Deixo o tempo me entreter em suas manias.

Quando encontro, ponho logo na coleção,
aquele lugar reservado desde sempre.
Alguns dão trabalho, peças exigentes,
outros acomodam-se dóceis ao coração.

O mar as vezes me traz algas, guardo-as também.
Não sou devoto das formas convencionais.
No mais, não sou fiscal de conchas. Que mal tem
se não pergunto nem exijo credenciais?

Arrisco. Meto a mão. Danem-se os caranguejos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Condução

Tomo o mesmo ônibus para a mesma vida.
Mudança? Serve um lugar vazio pra sentar.
Não dou, nem exijo muito. Tendo comida,
casa, roupas, tenho todo meu bem-estar.

A vida é simples. Sou simples. Apenas vivo.
Não recomeço, continuo. É arriscado parar.
Um dia eu quis ser tipo astronauta, explorar...
Hoje tenho um apartamento, é o que preciso.

Nem arrisco ter esperança, bebo cachaça
quando dói não ter algo bonito pra sonhar.
É amigo. Bebida cura qualquer mal-estar;
pelo menos logo gente esquece e passa.
.
Eu tive heróis, colecionei até figurinhas,
completei inteiro dois álbuns de futebol.
Amigos do peito, umas belas mocinhas,
tive gosto. Mas vida escurece sob o Sol.

Meu conselho? Desça no próximo ponto.

domingo, 2 de agosto de 2009

Medida

Onde encontrar medida para nossos esforços
se a semente lançada não brota por si mesma?

Chuva. 

Quisera eu saber a dança com seu nome,
ou palavra capaz de comandar o destino.
Anda. Ora comigo. O mundo sente fome,
e não existe ninguém para tocar o sino.

Pede a chuva.

Escavei fundo em busca de pedras duras,
fortes como o vento do tempo que passa.
Encontrei, em meio a rocha, águas puras.
Pare. Não ore assim. Toma a pá e escava.

Pede a força.

Busque a esperança encravada no baixo,
aquela com que pisa seu dia sem pesar.
Veja. Lá não há impossível, dúvida, acho...
Há sempre certeza quando a busca é amar.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Meu sonho é que mundo possa sonhar

Há um porto de partida, há um barco a esperar
outros tantos, tantos quanto coubessem no mar.
Lançar-se, não pode, enquanto estiver sozinho.

Velas estendidas, cordas a plena tensão,
no leme o infinito ao alcance de um olhar.
Mas enfrentar o vento forte em pleno mar
sem ter comigo a presença de um irmão?

Como ser herói sem ter a quem salvar, por quem lutar?

Quem me chamará bravo se eu não temer?
Quem responderá meu grito se eu me ferir?
Mesmo se um medo terrível eu puder vencer
como serei grande sem outro para me medir?

A mim importa que cada um encontre sua grandeza.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Natalício

Hoje é aniversário do infinito, talvez agora.
Não convém fazê-lo esperar seu presente,
pois o delicado estraga se houver demora.
Dá isso aí mesmo, o que o coração sente.

Junta, embrulha, coloca um bom laço,
não esquece do cartão com seu recado.
Deixa, bebida eu levo, comida eu faço,
só a decoração que fica a seu encargo.

Chegando lá não precisa fazer cerimônia,
infinito costuma estar em qualquer parte.
Pegue um banco, sente e se disponha
a ouvir sem ter pressa de ficar tarde.

Às vezes ele repete alguma história,
mas não deixe que ele perceba.
Ele gosta de parecer grande, a memória
que já não consegue ser a mesma.

Na partida não deixe de prometer voltar.
Infinito sente falta de companhia, é triste.
Não ter fim não ajuda a encontrar 
ombro ou amigo em tudo que existe.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

As Cores do Silêncio

Mais que ausência de palavras, supressão de ruídos ou alheamento dos sons do mundo, a série As Cores do Silêncio representam-no como aquela condição íntima para a escuta. Aqui visão, tato, paladar, olfato e audição silenciam, o ser humano como um todo se deixa arrebatar, esquecer e se tornar parte. Paulatinamente serão acrescentadas novas cores a série inicial, bem como complementadas as já publicadas.

Silêncio Azul

Ergueu-se na imensidão feito um pássaro recém-saído do ninho. Não sentia em seu peito a novidade, mas uma viva sensação de retorno, como se aquele céu já fizesse parte de suas memórias mais antigas. O vento o empurrava para cima, era um cavaleiro a galopar em sua montaria alada. Ícaro não falhou em sua tentativa de ser um deus. Voar é ser infinito.

Silêncio Verde

Até onde seu ser podia se estender, folhas unidas faziam da copa das árvores um tapete de incalculáveis tons de verde. Amarelos e rosas intrometidos eram incapazes de estender seus domínios além de pontos isolados ou pequenas moitas, resignados ao papel de simples enfeites. O canto dos pássaros emergia em ruído múltiplo de seres, somados, porém únicos, uma orquestra de instrumentos diversos e harmônicos. Sua melodia era a própria voz da natureza.

Silêncio Verde Esmeralda

Deitado sobre uma cama de ondas, adormecia embalado pelo movimento do barco. O anzol teimava em não obter sucesso. Entre incontáveis cardumes de peixes, não havia um que desse atenção a sua emboscada. Na expectativa de sua presa, era ele mesmo prisioneiro do mar em sua cela flutuante. E poderia pedir ao céus a pena perpétua.

Silêncio Amarelo

O frio não diminui sob o Sol, ineficaz para conter aquela gélida manhã. Contudo, sua presença aquecia a alma. O Sol não lhe trazia calor, dava-lhe um espetáculo, um prenúncio da Primavera que logo se estabeleceria em lugar do Inverno, e isso era-lhe suficiente naquele momento em que a matéria humana parecia também congelar-se no gelo das nevascas. Na escuridão basta-lhe o brilho.

Silêncio Laranja

O dia se despedia, mas não sem estender no horizonte o testamento de sua presença. Como um exército em fuga a lançar no campo de batalha um mar de despojos embebidos em sangue, o Sol buscava refugio em outras terras deixando atrás de si um rico tesouro abandonado de nuvens douradas.

Silêncio Vermelho

O ferro da lâmina fazia se sentir no sangue em sua boca. Ele, guerreiro antes invencível, era agora presa da dor. Jamais poderia supor uma morte diante de um inimigo tão sem valor, mas seus braços já haviam perdido o vigor e a destreza da juventude. Um adversário fácil, agora seu algoz. Sonhara com um sepultamento de herói, contudo já não espera nada. Seu corpo deixa-se tombar para trás em uma última retirada. Os olhos fixos do agressor não exigem novo golpe. Está o equilíbrio da vida nele para sempre abalado, seu templo de deuses e superstições são ruínas prontas a desabar.

Silêncio Rosa

Seus lábios se tocavam com a pressa de quem estava há muito faminto. Estavam sozinhos, não havia ninguém para incomodá-lo, ninguém para interromper ou interferir na busca de um pelo outro. Contudo, a ânsia não exigia agora outra contemplação que a própria realização do desejo. E esse exigia-se imediato.

Silêncio Negro

Um luto terrível tomou posse de seus ossos. Era o fim da espera, o fim da esperança, era a evidência do que tanto havia negado a aceitar nas palavras dos amigos que lhe apontavam a busca como mal fadada. O conhecimento da verdade roubou-lhe a crença num mundo já não mais existente, estava diante de um desenlace sem volta, a certeza da morte.

Silêncio Cinza

Nuvens cobriam com uma densa mortalha aquele dia macabro. Iria se repetir novamente a enchente da qual havia mal acabado de recompor-se. Um tipo de resignação fazia sentir até mesmo nos pássaros em sua busca por abrigo frente ao vento cada vez mais forte. Ainda guardava a esperança de chuva mudar de direção, de um sopro divino levá-la a terras secas e áridas, e afastá-la das terras onde sua presença havia se tornado um castigo, um dilúvio a matar no ventre o esforço de edificar. Contudo, o movimento da natureza mais uma vez anunciava a catástrofe. Não havia nele mais o desejo da fuga, a angústia de ser também vítima da tempestade, mas começa a despertar-lhe a necessidade de ser batizado uma vez mais naquelas águas para ser então lavado de uma vez por todas de sua crença no futuro.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Homenagem a um amigo

"Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. 
Mas, se morre, produz muito fruto."
(João 12,24)

Quis Deus fazer da lágrima a chuva mais humana
para que no deserto da morte pudesse nascer amor.
E então o raio já não fere, ilumina a saga, a gana,
de quem soube fazer-se no frio da vida, calor. 

Novos passos, nova estrada, agora sem despedida.
Pisada a terra batida, resta alçar um vôo mais largo.
Ficou pequeno o mundo, já não cabias na mesma lida,
num palco mais amplo havia pressa no seu encargo.

Resta agradecer a boa companhia, o sorriso fácil,
as inúmeras horas inúteis desperdiçadas com os amigos.
Os sonhos que tinhas, o inacabado, os talvez inimigos,
deixas para que voando nas alturas sejas mais ágil. 

Traremos no peito o remo que usaste entre amigos.*

Até logo Edu.
............................................................

Homenagem ao amigo Prof. Eduardo Brito falecido hoje.
Eduardo Manoel de Brito

*referência a Odisséia, Homero.

domingo, 19 de julho de 2009

Chão de Asfalto

Percorro caminhos tão antigos quanto a Terra
com a ousadia de quem os chama pelo nome.
Andarilho alheio a tudo que neles se encerra
penso ser eterno o que logo no tempo some.

Meus passos se unem a um pesado carro de boi
em um compasso de bestas errantes e solidárias.
Em um momento a realidade é tudo que não se foi,
partilho com toda história minhas mazelas diárias.

E então do alto da montanha que escolhemos por Paulista,
toco com meus pés um chão de asfalto e de argila,
sou Pau-Brasil, sou Jacarandá, sabiá e corrila, 
consciência completa num descobrir-se também paulista.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Soneto da Saudade

Saudade é ter nos braços a ausência
de quem foi, mas ainda permanece,
dor porta-retratada* em resistência
na luta contra o que não se esquece.

Cheiro de cravo** cravado no peito,
vazio insepulto entre fantasmas vivos
como a morte, pronto escrever o feito
numa lápide de retratos antigos.

Amor no tempo passado presente
conjugado em cada gesto do existir
como sacrifício de um fiel penitente.

Haverá um final feliz no devir?
A resposta ao seu coração pertence
se tiver coragem de prosseguir.

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*neologismo - verbo porta-retratar
**Cravo-de-defunto - flor comum em cemitérios

Te Tocar

O desejo modela meu espírito
como as ondas desenham o mar.
Basta uma brisa para arremessar
meu oceano contra seu destino.

Somos terra e água em arrebentação
quando meu corpo encontra seus braços.
Lanço-me a conquista, mas me desfaço
sob o toque suave de suas mãos.

E nessa entrega mútua do movimento,
invadindo e recuando, tomando e sendo tomado,
nos tornamos praia selvagem para o vento
em beijos e espuma, entrega e desacato.

E quando então recuamos da batalha
nos fazemos porto tranqüilo e seguro
onde as cordas são um amor maduro,
consciente e forte mesmo em suas falhas.

Amor Humano

O amor é uma certeza que acontece
em meio a incerteza certa da vida,
um profeta a invadir nossa ermida
com a liturgia própria de sua prece.

Ser divino, sem deixar de ser profano,
mistério do próprio Deus no humano.
Razão que não sendo feita de razões,
responde as mais profundas questões.

É como o mais belo passarinho!
Morre se preso em nossa mão,
mas aberta a porta do coração
lá serenamente faz seu ninho.

Ninguém sabe seu princípio ou destino,
nem há quem não reconheça sua estrada
quando a lógica dá lugar ao desatino
e viver é lembrar da pessoa amada!

E assim faço a mim um estrangeiro
perdido nesse país de encantamento...
Amor! Se sois da forja da vida ferreiro
chamarei aos teus golpes sofrimento?

Contra-oposição

Se tudo vai bem, diga que está mal,
caso piore, não tarde em dar sinal.
Desconfie sempre que algo melhore,
torcendo com vontade para que piore.

Jamais reconheça um projeto alheio,
trate de mostrar segundas intenções.
Lembre-se: o bonito passa por feio
quando quem fez ganhou seus tostões.

Importante é retornar logo ao poder,
mesmo que o custo seja a verdade.
Uma mentira dita com sinceridade
passa sem o povo nem perceber.

A mídia pode ser excelente aliada,
nunca deixe de expressar opinião.
Quando não souber dizer nada,
basta repetir um sonoro chavão.

Em debate eleitoral seja direto,
é arriscado mostrar hesitação.
Melhor improvisar com emoção
que tentar demonstrar intelecto.

Grave muito bem esse lembrete:
não existe errado
quando é aliado,
se é governo, mete o cassete.

Tendo ao final obtido a justa vitória,
poderá então implementar seu intento:
Varrer do comando a infame escória...
O povo? Isso já é outro departamento.

Gari

Passo como quem passa sem saber,
meu rastro é o esquecimento imediato.
Invisível, não me deixo perceber
de tão diferente de seu retrato.

O chão limpo, a folha varrida, o vento,
assinam em nós um mundo que não está.
São milhões de átomos em movimento,
um tanto mais de vidas ao Deus dará.

Guardo aquilo que ninguém quer mais,
embora lixo também esconda riqueza.
Talvez com reciclagem surja beleza
por trás dessa imagem de incapaz.

O que importa é que eu não jogue fora
o sonho de um Brasil bem diferente.
Se um metalúrgico vira presidente,
um gari também pode ter sua hora.

Cara

Traços, histórias escritas na carne,
marcas a repetir quem nós somos
a estranhos furtivos por toda parte.

Cara fechada é como sorriso aberto,
deixa a vida exposta feito confissão.
Onde esconder segredos do coração
se os olhos os trazem sempre por perto?

Cara é um pedaço de dentro pra fora
em que me visto do avesso em expressão.
Bom, também há umas marcas de catapora,
mas essas só enriquecem a composição.

Há quem procure reformar a fachada
ou ao menos disfarçar com boa pintura.
Já que a casa não pode ser mudada
o jeito investir no mal que tem cura.

Um dia a soma dos anos esculpirá na pele
o testemunho da experiência acumulada.
Então pediremos que o espelho nos revele,
não o belo ou o feio, mas se valeu a pena a caminhada.

Marmitex

Fui enganado!
Jantar requentado
não é comida francesa,
por mais que pareça.

Acaso caldo ralo,
bem acompanhado,
vira bom guisado
mesmo com galo?

Tira gosto não enche barriga,
mesmo junto de boa bebida.
Pra alimentar nossa lombriga
só mesmo comendo comida.

Salgadinho é bom, mas engorda.
Feijoada então nem se fala.
Melhor ficar na cenoura ralada
ou experimentar um tipo de torta.

Refeição pronta é até prático,
mas também não tem gosto.
O hábito de só comer rápido
faz a gente ficar indisposto.

Eu só como um grão de cada vez.
Contados, numerados, bem mastigados.
Ao todo seiscentos e sessenta e seis,
preparados em ambiente esterilizado.

Olha, vou dizer mas vê se não espalha:
meu sonho é aquele churrasquinho grego.
Acontece que sempre morri de medo,
vai saber no que dá comer aquela tralha.

Caixa

Por que você não faz mais uns furos pra ventilar?
Tem razão, deve ser sufocante ali dentro.
Ainda mais que não se sabe quanto vai demorar.
Verdade, aí pelo menos entra um pouco de vento.

E quando eles ficarem com fome?
Por isso deixei essa portinha pra sair.
Mas desse jeito nenhum some?
Não, eles não sabem pra onde ir.

Eles não sentem falta da natureza?
Esses foram criados em cativeiro,
não sabem viver em outro meio.
Eh, pobre não estranha pobreza.

E quando eles querem defecar?
É separado pra senhor e senhora.
É difícil depois pra limpar?
Que nada! Sai direto pra fora.

Você colocou alguma opção de lazer?
Quando eles não tem nada pra fazer,
podem parar e ir a máquina de café.
Desse jeito vai ter muito dando migué...

Atalho

Há quem diga que a felicidade é logo ali,
outros que alegria mesmo só no além.
Mas e se eu quiser ser feliz bem aqui?
Estará ela aqui, ali, acolá ou aquém?

Mas felicidade não é lugar nem posição,
embora possa ainda sim estar escondida.
Quem sabe se corrermos atrás haverá ocasião
em que possamos pegá-la desprevenida?

Nesse mundo de estradas tortas e tortuosas,
espaço curvo de possibilidades inesperadas,
veloz não é rápido, nem horas pressurosas
correm mais depressa que as mais pacatas.

A vida não se deixa adiantar como um relógio,
nem precisa que seja acertado o tempo certo,
pois felicidade não está no trabalho ou no ócio,
mas em ter quem se ama sempre por perto.

Horizonte

Se do cume de uma alta montanha
ouso lançar meu olhar sobre o mundo,
o infinito num sobressalto me apanha,
fazendo-me desconfiar do profundo.

Que haverá para além do horizonte?
O amanhã ou o passado ainda não posto?
O agora vindouro ou um presente oposto?
Será a História a esperar quem a conte?

Vejo a terrível sentença da morte,
destino inexorável do vivente,
a espera do mais rápido e mais forte,
enquanto abraça o senil e doente.

Vidas deixadas de lado pelo progresso,
correr sem saber pra onde ir e porque se vai,
seguir descontrolado o majestoso expresso,
enquanto o tempo cada vez mais curto se esvai...

Vejo os filhos dos meus filhos a perguntar
porque seus avós não lhe deram um lar,
mas a velha e surrada herança
de uma vez mais ter esperança.

Trabalhador

Cansaço... É mais um dia que termina.
Remoendo pensamentos distantes,
segue arrastando seu corpo fatigado.

Passo a passo cumpre dolorosa sina.
Músculos, ossos, todos suplicantes,
em pedaços tal refugo descartado.

Em meio a tantos dias trabalhados,
foram-se da juventude, as ilusões.
Dos seus parcos sonhos estraçalhados,
só restam as riquezas de seus patrões.

Geme, sofre, mas não foge à luta,
ainda que muda, faz ouvir sua voz.
Tira do sangue e suor da labuta
hino feito de sofrimento atroz.

Desabafo

Chega de respostas prontas
e questões já formuladas!
Nós é que faremos as contas,
mostrando razões ignoradas!

Desigualdade imoral!
Miséria tão descabida!
Pode verdade assim real
aos cegos ser escondida?!

Vidros blindados não livram
da imagem, projétil fatal.
Pobres crianças excluídas
aos semáforos não brincam,
lutam pelo essencial,
coisas por lei garantidas.

Filhos do Meu Brasil

Corpos e farrapos, frangalhos,
sob marquises espalhados,
homens, restos e retalhos
dos ternos bem costurados.

Vivem nos porões sociais
do velho Navio Negreiro,
que continua preso ao cais
do contexto brasileiro.

Mas eis de repente o grito,
corpos caídos, sangue ao chão.
A covardia dá o veredicto:
morte ao filhos da exclusão!

Só barbárie tão terrível
pode fazer o banal
tornar-se drama visível,
ganhar capa de jornal.

Como se a morte violenta
fosse menos suportável
que a silenciosa e lenta
diariamente implacável!

Religião Moderna

Todo povo tem seus deuses em suas catedrais,
algumas têm vitrines, outras têm vitrais,
imagens de ídolos e santos, mortos e imortais,
fiéis piedosos a repetir preces devocionais.

Eis que o largo fez-se praça de alimentação,
o céu estralado, luminárias artificiais,
pipoqueiro, meras franquias colossais.
a oferecer não o nosso, nem apenas pão.

Vendedores, os sacerdotes do consumo,
dispostos a aliviar nossa consciência
do pecado de comprar mesmo sem ter uso,
divina providência da pronta conveniência.

Deverás pagar o dízimo do cartão de crédito,
senão serás lançado no inferno do SPC,
de onde só sairás se quitares todo débito,
acrescido de multa, juros e algumas sei lá o que.

Mas um dia virá a fatídica fatura final,
abri-se-á o sigilo de toda conta bancária,
saberemos quem é rico ou pobre, bom ou mal,
e seremos todos apenas adubo de braquiária.

Feira Autoral

Palavra, palavra, palavra,
palavra privatizada.

Livros, jornais e revistas,
cultura pasteurizada.

É puro néctar do lucro!

Quem for pobre não paga,
mas também não leva.

Traz a vasilha. Traz a mente vazia.

Pode chegar freguesia,
arte é mercadoria.

Aproveite a promoção,
leva uma música e só paga um tostão.

Um real. Um real.
História fresquinha!

Pechincha. Pechincha.
Informação já cortada e embalada.

Agora são duas caixas, duas caixas.
Só não leva conteúdo para casa
quem não quiser!

Tem troco para vinte?

Marca Registrada

Ah se gente viesse com etiqueta de fábrica!
Sumiriam os pobres num passe de mágica!
Mas etiquetas custam caro infelizmente,
enquanto o ser humano é apenas gente.

Nossos avós já conheciam a solução,
mas a marca do ferro fez-se estigma,
tráfico negreiro não atrai mais atenção,
o escravo nasce e morre sendo vítima.

Triste a terra em que qualquer manequim
veste-se com linho branco ou cetim,
mas mendiga envolto em qualquer pano
quem deveria ser tratado como humano.

Vivemos em um mundo marcado em toda parte...

No Meio do Esgoto

No meio do esgoto tinha uma ponte
tinha uma ponte no meio do esgoto
tinha uma ponte
no meio do esgoto tinha uma ponte.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do esgoto
tinha uma ponte
tinha uma ponte no meio do esgoto
no meio do esgoto tinha uma ponte.

Versão paulistana da poesia "No meio do caminho", Carlos Drummond de Andrade. Uma
homenagem aos construtores da Ponte Estaiada sobre o Rio Pinheiros no Bairro do Morumbi
em São Paulo.

Ditabranda

Ao carrasco que empunha o chicote
carne rasgada parece macia.
Grito roubado da boca do forte
nem mesmo um jornal silencia.

Quantos precisarão sofrer tortura
para um regime virar ditadura?
Se não basta assassinar estudante,
quanto sofrimento será o bastante?

Pau-de-arara não é mentira inventada,
nem choque elétrico exceção a rotina.
Como comparar a tristeza causada
se a lista de mortos nunca termina?

É hora de acertar contas com o passado
para que nunca mais se repita esse ato.
Anistia não corresponde ao perdão,
somente a justiça traz libertação.

Abram-se os porões da ditadura,
revelem nossa verdade nua e crua.
Que não falte o julgamento da história
àquele que se achar digno de glória.

*Termo utilizado pelo jornal Folha de São Paulo em editorial do dia 17 de fevereiro de 2009 ao tecer uma comparação entre a ditadura militar brasileira e demais congêneres da América
Latina.

Deixando a Consciência Falar

O que te faz dono do que tens?

O que te faz das tuas coisas proprietário?

Não escutas o clamor do indigente
a quem dia após dia tens desprezado?!
Acaso és assim deles tão diferente?
Ou não estarás tu neles retratado?

Como podes tu fazer-te insensível
ao sofrimento de teus irmãos?
Pensas que és dessa culpa eximível
como se pudesse lavar as mãos?

Mas se teus direitos tão fundamentais
não têm a Justiça por fundamento,
como negar que as mazelas sociais
não provêm do teu frio alienamento?

Mesmo que a ilusão da riqueza
possa te dar um fraco calor,
só alcançarás tua almejada grandeza
quando entenderes o que é o Amor!

Cem Anos de Revolução

O povo clama mudança!
Esgotaram todos os meios.
Lutemos pela esperança!
Morramos por seus anseios!

Armas à mão, revolução!
A história jamais vai esperar
por quem não quiser lutar!
Só a força muda a nação!

Algumas décadas depois...

Os avanços foram notáveis!
Nunca houve tal progresso!
Ficando as coisas estáveis
logo reabrirá o congresso.

A imprensa é livre e aberta,
não existe censura no país.
O governo está sempre alerta
pra escutar o que povo diz.

Mais algumas décadas...

A fome está superada.
Não existe mais corrupção.
Amanhã haverá passeata
para apoiar a revolução.

Traidores seguem atuantes
tentando novos levantes.
Devemos estar vigilantes
agora ainda mais do que antes.

Cem anos depois...

O povo clama mudança!
Esgotaram todos os meios.
Lutemos pela esperança!
Morramos por seus anseios!

Armas à mão, revolução!
A história jamais vai esperar
por quem não quiser lutar!
Só a força muda a nação!
.....
Afinal, o que deu errado?

Quartel Bancário

Vocês foram selecionados para uma dura missão.
Não serão toleradas nenhuma gracinha ou brincadeira.
Joguem fora toda e qualquer piedade de coração.
Quem tiver alguma dó que vá pro convento ser freira.

Sim Senhor, Capitão.

Mais alto! Quero ouvir o eco!

SIM SENHOR, CAPITÃO!

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, essa senhora quer empréstimo consignado.
Ela trouxe comprovante de renda ou de aposentado?
Não Senhor, ela alega viver de pequenos trabalhos.
O QUE?! Joguem para fora junto com seus retalhos!

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, esse pai diz estar perdendo sua única casa.
Perguntem há quanto tempo que a prestação atrasa.
Cinco meses, Capitão. Ele diz estar desempregado.
QUER MORAR DE GRAÇA? Que vá morar em barraco.

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, encontramos esses mendigos na porta da agência.
De novo? É décima vez que enfrentamos essa delinquência.
O que faremos com eles capitão? Assistência social?
O QUE?! Dêem uma surra e liguem pra força policial.

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, esse rapaz não consegue quitar o cartão de crédito.
Fez compras à vontade e agora não quer pagar o débito?
Ele alega que não foi informado sobre o valor do juro.
NÃO AVISARAM?! Que preste mais atenção no futuro.

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, esse fazendeiro não consegue financiamento.
Mande dar como garantias suas terras e equipamento.
Senhor, ele diz que um amigo perdeu tudo desse jeito.
Quem mandou confiar em banqueiro, BEM FEITO.

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, esse cliente está reclamando do atendimento.
Peça pra aguardar. Alguns minutos não são muito tempo.
Senhor, ele alega estar há mais de três horas em pé.
Então que traga um banquinho da próxima vez, NÉ?

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem!

Capitão, esse empresário precisa de capital de giro.
Querendo emprestar uma graninha para um respiro?
Senhor, ele alega que cancelaram um grande pedido.
E EU COM ISSO? Mande ele se declarar falido.

Marchem!

Um, dois, três,
quatro, cinco, mil,
queremos ganhar nas costas do Brasil.

Parem! Descansar!

Hora de faturar o resultado diário...

Foto de Família

Há felicidades que são feitas para porta-retrato...
Talvez porque somente a distância compreenda
o que parece apenas mais um sorriso no quadro,
ou por agora haver coisas do que se arrependa.

Ah se todos aqueles olhos soubessem que se amam!
Ah se aqueles braços passados se abraçassem
e de repente se dessem conta daquilo que agora são.
Quem sabe aquela discussão jamais os separassem...

Aqueles pequenos não voltarão mais ao mesmo colo.
A ingenuidade do deixar-se abrigar entre poucas mãos,
deu lugar a busca pela independência e auto-afirmação.
São adultos e a idade cria em nós todo tipo de dolo.

Há também aqueles que não estão mais entre nós,
ou somos nós mesmos sua presença no presente?
De qualquer forma, sinto saudade da sua voz,
e de eu poder lhe falar o que meu coração sente.

Queria ao apertar forte essa lembrança ao meu peito,
voltar aquele momento passageiro em que tiraram foto
para estar ao seu lado, lhe beijar e sentir o seu cheiro.
Mas no fundo eu sei que com meu amor ainda lhe toco.

Quadro Negro

Giz, lousa, regras a serem seguidas,
alunos herméticos em atenção estóica.
A vida são normas estabelecidas,
engolidas a seco em prontidão heróica.

Um bocejo desafia perigosamente a monotonia,
desabafo abafado de um sono irresistível.
Sobre mochilas corpos vencidos em sintonia
com um mundo externo quase impossível.

A aula, autônoma e alheia ao vitupério,
prossegue magnânima em seu enlevo.
Que pode a didática frente a tal império?
Poderia alguém tocar de Deus o dedo?

O que inquieta não é o presente,
mas o futuro que vem e não espera.
Como fazer um país diferente
se o templo do saber é uma tapera?

Bate

Bate coração de poeta.
Bate asas do meu ser.
Bate e se debate contra as palavras, vence a vida.

Escuta essa frase solta no vento.
Escuta o silêncio dos pássaros.
Escuta a voz que arde no seu peito.

Toma e escreve, e conta, e narra
a saga em que todos somos heróis.
Mostra e demonstra, solta a amarra,
me ensina a girar como os girassóis.

Levanta o lençol, descobre o medo,
acorda a criança que há em nós.
Mexe e remexe, sacode o zelo,
livra-nos da companhia de estar a sós.

A caverna é um abismo traiçoeiro,
saiamos dela, toquemos o mundo,
que ele se deixa tocar simples e fagueiro.

A porta está aberta, nunca se fechou,
nossos cavalos já estão preparados.
Basta abrir os olhos, largar o que ficou,
e seremos todos príncipes encantados,
princesas envoltas em lenços dourados.

Desarranjo

Cada coisa em seu indevido lugar,
finalmente um recomeço de nada.
A trama da vida deu nó, embolada,
enquanto tentava não se afogar.

O senso virou humor quando a razão,
enfeitiçada em seu próprio encanto,
quis dispensar o saber do coração
pronta a ditar regras em todo canto.

Antes nunca do que tarde, o alarde
gritou sinal a bandeira nacional:
acorde que a ordem virou carnaval
antes do tal progresso ser verdade.

O que importa é jamais faltar rede
onde eu me achegue nessa terra.
Quero um coco para matar a sede
enquanto finjo ser paz o que é de guerra.

Passa-se falta de índio nessa tribo.
Quando todo mundo quer ser cacique
o bem comum se perde em trambique
e a vida é miséria de todo tipo.

Talvez se Deus nos desse um país feito de Lego
a gente pudesse encaixar as peças pra montar...
A verdade é que se um povo tornou-se cego
somente dando as mãos pode se reencontrar.

Poesia Formulária

Caso queria uma poesia, por favor, preencha os campos abaixo.

(Descreva um mendigo)

(Descreva o cachorro do mendigo)

(Descreva você passando)

(Descreva alguém dando comida ao cachorro)

(Descreva o mendigo tentando tomar a comida do cachorro)

(Descreva alguém chamando a polícia para apartar a briga)

(Descreva o mendigo sendo preso por infringir a lei de proteção aos animais)

(Continua a descrição da prisão do mendigo)

(Descreva o cachorro, agora sozinho, triste e faminto)

(Descreva você passando pelo mesmo lugar com outra roupa)

Homo Urbanus

Abre-se a tampinha de refrigerante,
borbulha furiosa uma nova manhã.
Brancos flexíveis acordam vacilantes,
esperando secos o beijo da anfitriã.

Deita-lhes a medida de cada homem,
segundo o volume aberto em seu espírito.
Porém, esses antes que de todo lhe tomem,
esvaziam seus copos com outro antídoto.

É hora de guiarem suas latas de sardinha,
hipnotizados por uma rotina repetitiva.
Que importa o quão veloz, rica e atrativa
se no fundo é tão somente uma latinha?

Trânsito, essa procissão cotidiana,
leva-os ao cativeiro de seu ganha pão.
Uns poucos metros, uma cadeira, um escovão.
Enfim, toda riqueza da raça paulistana.

Ao final do expediente diário
morre novamente nosso herói.
Unido a todos enquanto solitário,
termina a saga que lhe corrói.

Fecha-se a garrafa. Guarda-a na geladeira
para talvez bebê-la na hora derradeira.
Embora saiba que não provará desse vinho,
pois há muito deixou os litros pelo caminho.

Revisão Histórica

Se eu estivesse vivo...

o Holocausto jamais teria acontecido,
nem mesmo teria existido o Nazismo!

Escravidão teria sido trabalho bem remunerado com férias anuais!
Teria salvado cada índio, cada selvagem que habitava o Brasil!

Mata Atlântica seria a Grande Floresta Atlântica!
Nosso ouro seria nosso ouro! Nossa riqueza nossa riqueza!

Tiradentes teria sido conhecido como um bom dentista!
Nunca teria se ouvido falar em fogueira da Inquisição,
muito menos o fogo teria tocado Roma!

Todos nós poderíamos ler hoje os pergaminhos de Alexandria!

Cristo não teria sido crucificado,
Cain não mataria seu irmão Abel,
Eva nem mesmo tocaria a maçã!

Teria evitado todas as guerras, todas as pestes, todas as fomes!

Estaria na equipe de salvamento de todos os grandes desastres!

Nunca teríamos ouvido falar velhinha sem visita, doente sem acompanhante, nem criança
sem pai!

Mas infelizmente sou apenas um grande cínico.

Falta

Tem dia que o bolo quebra quando ia sair da forma!

Falta sal, açúcar, manteiga...
Ah como eu queria que de repente surgisse um pote cheio atrás de uma couve-flor...

É triste, mas plástico não vira manteiga.

Às vezes parece que essas faltas que dão gosto na vida,
ter tudo não deixa oportunidade pra reclamar de nada, ah.

É por isso que existe o pecado da gula. Gula é ausência de falta.

E como tem gente gulosa por aí!

Tem tanta gula que precisa fingir falta a falta que não tem! (ou será que era dor?)

Falta danada que faz não ter falta!

Dizem que se faltasse para todo mundo, todo mundo teria tudo!

É o mistério da falta.

Mas será que aí não surgiria alguém que não ia querer ter nada por ter tudo?

Outro mistério da falta.

Há quem diga que o homem é tanta falta que é buraco.
É por isso que a gente sente fome.

Mas eu acho que não é buraco não, acho que é poço.

É que ninguém sabe mais tirar água de poço, aí acha que é buraco, mas é poço, eu sei.

De vez em quando eu jogo uma pedra e se fico bem quietinho escuto o barulho da água
lá, lá embaixo.

É o mistério da água do poço do buraco da falta.

Eu já consegui um balde, descobri a falta que era suficiente pra buscar a falta que há lá
no fundo.

Um dia espero chegar na água.

Pandemia

Uma terrível doença acomete a humanidade.
Jornais noticiam que crianças estão morrendo!
Isso mesmo! Nossas crianças estão morrendo!

E estão morrendo em toda parte,
vítimas de uma peste sem controle.
Acionemos o mais severo alarme!
Lutemos antes que esse mal nos tome!

Não! Não! Jamais nos renderemos!
Jamais entregaremos nossos filhos!
Nossos pequenos, nossos meninos!

Que será do nosso povo? Que será do país?
Nunca aceitaremos um destino tão macabro!

Sim, corramos, compremos outras máscaras,
antes que o egoísmo se alastre!

Homenagem à Clarice Lispector

Essa mulher que come palavras com colher
e segura nas frases com as mãos!

Não lhe ensinaram que o sentido pertence ao dicionário?

Vocábulos são átomos sujeitos a regras,
gramática é a Física da literatura.

Não se pode sair assim juntando coisas.
É feio.

Corre-se o risco de inventar algo novo,
quem sabe perigoso e mortal.

Experimentos com palavras já provocaram reação em cadeia,
é preciso ter cuidado.

Ou pior,
nesse tempo de piratas e sequestro relâmpago,
imaginem se capturam e exigem resgate por alguma palavra estimada?

Por isso eu sempre acompanho minhas palavras
quando elas vão passear no parque.

Não convém deixá-las sozinhas um segundo sequer.
De noite eu as cubro e canto belas canções.
Sabe palavra só pega no sono acompanhada.

Graças a Clarice descobri esse hábitos estranhos das palavras.

Hoje eu também não as como com garfo e faca,
afinal pra participar desse banquete basta ter boca.

Papel de Bala

Bom seria se tudo na vida viesse em papel de bala.
Alguns puxões, um mover habilidoso de dedo,
e de repente um sabor barato nos invade e cala.
E o melhor: masca-se em público sem medo.

Por isso eu mastigo direitinho tudo a minha volta,
sou uma ilha cercada de mundo de todos os lados.
Mas nela não há flores, nem uma criança peralta,
nem é principado planetinha: na verdade é chato.

Isso porque não sou dono de nada, tudo é emprestado.
Por outro lado, não tenho trabalho com manutenção.
Imaginem se o Sol ou a Lua dependesse de aprovação
para esquentar do frio ou entreter um casal de namorados?

A vida seria complicada demais,
ser poderoso não traria vantagem.
Hoje tudo está a mão quando apraz
e ainda posso fazer muita bobagem!

Quem quer ser Deus se pode ser homem?
Se bem que ser anjo quebraria um galho danado.
Nesse trânsito cada vez mais congestionado
um par de asas teria sido muito útil ontem.

Mas enfim, a bala é de framboesa.

Desejo de Mundo

Rasguem os mapas, dêem-me o mundo.
Que o vazio do movimento complete o que me falta.
Quero ir ao mar sem fundo,
tocar com meus dedos a estrela mais alta.

Meu pasto se tornou verde demais,
no cocho a água abunda corrente.
Mas antes a morte a ficar para semente,
antes a miséria que olhar para trás.

Durmam os anjos no céu e os demônios no inferno,
meu desejo está além do bem e do mal.
Busco abrigo, não quero um tribunal,
farei meu lar onde haja flores no inverno.

Serei floresta, serei deserto,
senhor, escravo, mestre e aprendiz.
Apenas um dia não estarei certo,
e farei tudo aquilo que não fiz.

Então conquistarei o que habita meu coração,
esteja meu corpo onde estiver.
Serei dono do mundo com a história na mão,
não tendo uma coisa sequer.

Parede de Vidro

Sinto a força da existência
como o despertar de um sono milenar.
Quebrou-se a parede de vidro, voar
é mergulhar na experiência.

Vesti-me com véu que cobria tudo,
nu como o primeiro Adão criado.
Coisas cochicham segredo mudo,
rico e pleno de significado.

A realidade foi pregada em minha carne
com os duros cravos do sentido.
Amanheço com o dia, entardeço com a tarde,
anoiteço em seus braços abatido.

Quando a terra envolver meu corpo estático,
e passar a comunhão plena com a matéria,
respirarei de novo em uma pequena centopéia,
viverei para sempre em um morrer dramático.

O Amor é Cego

Veneza! Veneza! Ah se conhecesse de São Paulo os canais!
Ah como são belos! Como é exuberante minha capital.
Ao amanhecer ou ao final da tarde corro as suas marginais,
me uno a infinita multidão a contemplar sua beleza real.

Que água pura! Que delícia cristalina!
Um frescor indescritível me embriaga.
Seus rios são como tranças de menina!
Sua forma não admite nenhuma paga!

- Tio tem um trocado?
- Espera eu terminar que eu já te dou.

Será sempre pendor de minha alegria,
razão suficiente a minha salvação.
Uma gota de seu manancial bastaria
para encharcar a terra do meu coração.

Pudesse a chuva lhe acrescentar volume,
não sofreriam os céus tamanha inveja.
Mas não! Se com rigor a rajada peleja,
ainda mais força sua natureza assume.

- Eu to com fome...

Seus seios são alimento a todos os povos,
berço materno para filhos velhos e novos.
O rejeitado encontra sempre em seus braços
um lugar aconchegante onde fazer seus laços.

Sua engenharia desafia o risco das alturas,
elevando acima de todo mundo sua glória.
Prédios, pontes, verdadeiras esculturas
a perpetuar sua grandeza na história.

- Tio...
- Que saco. Toma e vai embora.

Que poderia eu somar a tamanho triunfo?
Acaso haveria como melhorar a perfeição?

- Quem sabe com um pão com presunto,
ou pelo menos com um ticket refeição?

- Moleque...

Ruínas

Pedras como corpos, corpos como pedras.
Um mundo inteiro em estado de decomposição.
Cemitérios não tem muros no findar de uma era,
o esforço de esconder a morte tornou-se vão.

Paredes lutam em pé, órfãs de qualquer sentido,
guerreiras dispostas a não aceitar seu destino.
Tudo fez-se janela nos limites desse baluarte
embora fora e dentro se aplique a qualquer parte.

Miséria na terra, miséria nos homens,
a natureza recusando dar seu fruto.
Nas ruas crianças à venda feito produto,
sem encontrar interessado que as compre.

Mesmo o grito prega-se a garganta,
incapaz de clamar por salvação.
Resta o desespero, morta a esperança,
viver é agora a pior condenação.

São Paulo, 01 de Maio de 2009

Garrafa PET

Ei-la a escorregar seduzida pelo vento
como quem se deixa velejar rumo ao mar
feito nau capitânia do Descobrimento
de um mundo desfeito pela ânsia de usar.

Cortejo fúnebre em um rio vestido de luto,
cheiro de morte a tomar conta da cidade,
epitáfio a escancarar o estado dissoluto
em que perece um povo sem dignidade.

Há quem a toma como corpo a pedir ajuda,
um dever não estar ali, um equívoco grave,
mas se é tão perfeita a cena em disputa
poluição deveriam ser os peixes ou as aves.

Segue altaneira a levar o progresso ao interior,
civilizando caipiras como bandeirante,
humanizando a natureza antes sem senhor,
porta-voz da capital ao bárbaro distante.

Talvez um dia ela possa enfim chegar ao oceano,
descansar em paz ou começar uma nova viagem,
enquanto esse povo ainda procura a coragem
de ir ao fim de sua história e ser soberano.

Por Favor

Você poderia me emprestar um amigo?
Serve de segunda mão ou meio usado,
quem sabe algum de modelo antigo,
o que importa é que seja bom de papo.

Hoje eu encontrei alguns na promoção,
desses para esquentar no micro-ondas.
Mas não gosto dessas coisas prontas.
Afinal, nada como amigo feito à mão.

Quem sabe eu deva tentar aluguel?
Custa caro um decente hoje em dia,
quanto mais se for presente e fiel.
Talvez prestação nas Casas Bahia?

Já sei! Vou lançar um novo movimento
pela redistribuição das amizades!
Chega de panelas e isolamento!
Viva o Brasil! Viva a fraternidade!

Mas se no fim der mesmo tudo errado,
restará apenas uma arma terrível:
dizer bom-dia a quem estiver ao meu lado
mesmo quando esse parecer insensível.